E mais um dia começa na feira.Dia de ganhar e perder dinheiro, dia de comprar e vender e principalmente, de sentir o contraste.Sentir os gritos das galinhas contrastando com o barulho do facão de seu algoz.Sentir o calor humano contrastando com o nada humano.Sentir o cheiro das mais puras especiariais contrastando com a lavagem de alimentos estragados no chão.Sentir.
Dona Maria sente há muito tempo.Com a caixa no chão, joga por cima desta maçãs colhidas no quintal de casa.Olha pro relógio e pensa no cansativo dia que tem pela frente e vê que, realmente, hoje não era daqueles dias que tudo pode acontecer.Num ensaio de microfeira no seu ser, Dona Maria sentiu o cansaço contrastando com a cobiça.
Dona Maria não era daquelas pessoas desapegadas materialmente.Não tinha religião,gostava muito de dinheiro e não entendia quem o tinha e não o desejava mais e mais.Encarava o monetário como solução e dizia que quando ganhasse na sena e fosse muito rica, compraria toda a feira.Com a gritaria alucinante, consegue vender algumas maçãs.O tilintar das moedas contrasta com o nada no bolso.
Do alto dos seus 52 anos, era tida como esnobe por quem a conhecia.Devido ao fato de estar sempre se abanando por causa das fortes ondas de calor provenientes da menopausa, comprara um leque.Leque que comprara com o dinheiro roubado do marido, que quando chegou em casa e não viu seu suado salário, encheu-se de raiva como um touro.E Dona Maria sentiu.Sentiu o contraste da mão pesada do forte homem contra seu rosto bem cuidado.
Dona Maria ficava sempre em frente ao galpão central da feira.Dentro de lá encontrava-se uma verdadeira orgia sensorial.Para os olhos, cores e mais cores das especiarias, tão cobiçadas no passado.Paras os ouvidos, música regional englobada pela dança de alguns circulantes.Para o nariz, derivados de rapé e temperos não tão estimulantes, mas deliciosos do mesmo jeito.Para o paladar, a graça divina por meio dos temperos que exercendo sua função, engloba todos na sinestesia mais perfeita possível.
Dona Maria amava aquele lugar.Lembrava com fervor de sua infância na roça, onde o pai no final do mês vendia tudo o que havia colhido.Sentia o cheiro dos temperos e sentia-se feliz ao ver seu marido, feirante ali.
Sentia raiva dos mendigos, espécie que borbulhava por ali.Mendigos que se autoproclamavam vigilantes de carros e que não satisfeitos, riscavam os carros de quem não os pagava.Vagabundos, por assim dizer.E Dona Maria tinha por eles repulsa.Repulsa dos doentes mentais, bêbados e viciados.
Ela só reparou que a feira estava acabando quando roubaram uma maçã sua.Dona Maria sentiu o forte sol do meio dia batendo em sua macia pele.Juntou as maçãs, colocou-as em um carrinho de mão e foi embora.Para trás, deixou as sensações e algumas maças caídas na lama que estavam podres.Amanhã, pensou ela, alguém sente.
Bela imagem.
ResponderExcluirAdoro feiras coloridas.
obrigada pela visita Katarine :)
ResponderExcluirgostei demais do texto =D
congratulações ao camarada Higino :)
ResponderExcluir