Quando Valentina se despediu de Luís sabia que teria de carregar a saudade aonde fosse, e olha que pesava muito! Até costumava brincar dizendo que só podia ter dois corações para caber tanta falta. Às vezes a falta ocupa mais espaço do que podemos pensar, e Valentina sentia bem isso.
Por terem crescido juntos muitos viam de forma pueril, "coisinha de criança, já passa", mas o clima idílico que sempre acompanhara os dois fez com que promessas fossem feitas, e depois que se cruzavam os dedos não poderiam mais voltar atrás. E habitualmente faziam essas promessas, embora a idade devesse trazer consigo um pouco mais de madureza. Mas quem ligava? Valentina, com suas 17 primaveras bem vividas e floridas e Luís, com 20 - até poucos - anos não precisavam contar a ninguém de seus planos, e era o que faziam. Além de promessas, guardavam segredos. Sabiam como fazê-lo. Entre tantas promessas e segredos, o mais importante: um deveria guardar o coração do outro como se fosse seu. Será por isso que Valentina sentia tanto pesar? Daí deve vir a história dos 'dois corações', mas era segredo.
Foi assim, deixando aos cuidados de Valentina o seu órgão mais nobre, que Luís partiu. Para onde? Pergunte a Valentina. Se ela disser, estará desvalidando o cruzar dos dedos. O vazio por ele deixado estava do ladinho de Valentina. Sempre. Mas ela não gostava de comentar sobre, tentava até fingir que a ausência era ausente, mas raramente dava certo. Parece que a vida contrata pessoas para citar o que não queremos e era assim que, vezenquando, Luís protagonizava conversas alheias por horas a fio e para Valentina a saudade tinha gosto amargo. Não era daquelas saudades que têm gosto do melhor abraço, ou do dia laranja, ou da chuvinha que tenta invadir a varanda em vão. Tinha gosto de todas essas saudades juntas e - acredite - o paladar final é pior que chá de boldo.
Mas agora cruzava os dedos prometendo a si mesma que, sem segredo, iria reencontrá-lo em breve. Os 6 meses de miocardite induzida já se findariam. E se findaram. Luís trouxe na bagagem todos os sintomas de Valentina, acompanhados do melhor abraço, um dia laranja seguido de uma chuvinha que tentava invadir a varanda em vão e a promessa de que não mais precisariam dessa ausência. O vazio logo se encheu da presença de Luís e Valentina se livrava do amargor daquela saudade não muito saudável.
Continuaram a cuidar um do coração do outro, já sem peso algum. Agora só lhes restava cruzar os dedos para que aquele sentimento idílico, ou pueril como alguns ainda pensavam, não se amargasse. E não seria errado se isso prometessem. Já não era segredo para ninguém.
Saudades é ser, depois de ter.
ResponderExcluirQue encanto.
ResponderExcluiramo os desenhos do alone gut.
se encaixou tão bem :))
obrigada por aparecer em meu reino Katarine :))
Olá, Katarine! Bem-vinda ao Significantes!
ResponderExcluirGoatei do teu espaço. Tb fico te seguindo.
Um abraço!